Faixa de Gaza
Tenho um cachorro chamado Leonardo. Minto, o cão é da minha mãe. Um shitzu carente, com dentes e pequenas pernas tortas que lhe conferem um ar divertido.
Tenho também - e essa é só minha - uma gata chamada Marie. Marie é uma gata sem raça definida, mas de personalidade bem definida, dificil e insolente. Já apanhou, recebeu ameaças, subornos em forma de ração úmida e erva de gato. Nunca consegui dobrar aquela panca aristocrática e a agressividade típica de qualquer diva que sabe que é diva.
Pois Leonardo quer socializar com Marie a qualquer preço. Quer cheirar-lhe o rabicó, quer dividir o cachorro de pelúcia imundo que ele carrega pela casa, quer brincar. Marie não quer nada disso e desconfio que deseja todos os dias que ele morra de repente, infarto fulminante, lombrigas, que salte para o vazio da janela.
Leonardo sempre aceitou como se fizesse o papel de homem feio atrás da bonitona do bairro. Como um trouxa, abanava o rabo, recebia literalmente patadas na cara e... continuava a abanar o rabo.
De uns tempos cara cá Leonardo - O Cão, resolveu pagar para ver. Resolveu sair latindo agressivo após cada negativa da gata, que salta para cima da mesa e fica com taquicardia por alguns minutos.
Eu não mencionei, mas Leonardo - O cão, é carente de uma forma patológica. Mesmo recebendo carinho, ele olha com olhar de sofrimento, de dor por não ter sido amado nas outras 23h do dia. Ele descobriu que eu amo Marie como a filha delinquente que algumas família têm: eu imploro amor e ela me dá quando quer. Se lhe der vontade.
Instaurou-se uma Faixa de Gaza constante que inicia assim que eu acordo e termia quando um dos dois animais vai dormir. Quando não acontecem ações noturnas: ataques, fuga, latidos, perseguição, derrapadas.
Até que um dia, sem perceber, habitamos por alguns minutos o mesmo sofá. Leonardo - O Cão, instalou-se primeiro sobre minhas pernas geladas e dormiu. Marie assistiu a tudo de cima da mesa com o olhar misto de nojo e desdem. Até que, aristocraticamente, desceu da mesa, analisou o ambiente e subiu no sofá, na outra ponta. Por minutos contemplei a cena sem acreditar: a Faixa de Gaza havia afinal concordado com um cessar fogo! Era como EUA e Rússia depois da Guerra Fria, Zod e Superman, Beatrix Kiddo e Cabeça de Cobre, Coringa e Batman - juntos e em paz.
É claro que não durou muito. Leonardo - O Cão abriu os olhos, sacou a cena e foi certeiro no rabuicó da gata, que acordou no susto,deu uma patada e foi resguardar sua dignidade em cima da mesa.
Mas ficou uma esperança de dias pacíficos, de um cessar fogo que dure mais que alguns minutos. De que um dia eu saia da cama de fininho e pegue os dois no flagra, no maior chamego em cima do sofá.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Hoje fez um fim de tarde quente, com direito a vento morno e folhas rodopiando em pequenos redemoinhos.
Sentei no ponto de ônibus apreciando as mudanças de cor do céu, que antes de escurecer por completo pintou-se de lavanda.
Ao meu lado um casal de velhinhos bem velhinhos, do tipo que já saem no lucro a cada dia que acordam.
E o que tem de interessante em um casal de velhinhos na capa da gaita?
Vou te dizer, que nunca tinha visto tanta sintonia entre um casal de tão longa idade.
Ele olhava para ela com ternura, com cuidado. Ela retribuía com pequenos sorrisos e o mesmo carinho. Em uma das rajadas de vento, onde uma poeira espessa levantou, ele chegou bem perto dela e fez uma especie de barreira com o corpo. Os dois deram risadinhas como dois adolescentes.
Eu sorria também. Nesse mundo desgraçado em que a gente vive, onde os relacionamentos parecem todos bombas prestes a explodir, ver aquele casal me deu esperança de um futuro bonito com alguém legal. Alguém que me proteja das rajadas e vento que a vida soprar.
Na hora de subir no ônibus, ela segurou no braço dele com confiança e ele a conduziu com cuidado, ajudando-a a subir com delicadeza.
Antes de descer do ônibus dei uma última olhada, o sol ja havia desaparecido por completo. A senhora havia passado um lenço sobre a cabeça e o senhor o braço sobre os ombros dela, provavelmente como o fez a vida inteira.
Vim caminhando e sorrindo, pensando na beleza daquela cena que provavelmente passou desapercebida para o resto do mundo. É esse olhar atento sobre as coisas belas da vida, que eu espero nunca perder!
sábado, 23 de novembro de 2013
Um pacote de bolachas vale mais que uma rosa
Relacionamentos, ah esse mar inexplicável de armadilhas e prazeres. Como dizia Leminski:
"O amor, esse sufoco, agora a pouco era muito, agora, apenas um sopro. Ah, troço de louco, corações trocando rosas e socos".
Uma das minhas teorias é que tentar enfiar qualquer relacionamento na mesma fôrma de sempre aumenta e muito a chance de as coisas desandarem.
Meu atual relacionamento é algo que elucida bem a histórias toda.
Tenho um namorado maravilhoso. E ao mesmo tempo muito difícil de se lidar.
Eu entrei nesse relacionamento querendo nada e me encontrei, depois de alguns meses, querendo tudo: a casa, o cachorro, os filhos, os almoços de domingo, o acordar junto todo os dias. E descobri, com muita dor, que meu amor não partilhava das mesmas expectativas. Eles tem suas razões, que eu até entendo, mas foi muito difícil olhar para o meu sonho de casinha feliz e me despedir dele.
Desistir ou continuar não seria fácil. Foram dias de choro, de discussões, foi um termina daqui, reata de lá. Duvidei do amor, das intenções - minhas e dele- minha auto estima de espatifou, pensei em trocá-lo pelo primeiro Zé Ruela que encontrasse no caminho.
E por que então continuar com esse cara que não quer nada comigo?
Por que eu entendi que não partilhar do meu sonho de casinha feliz não era o mesmo que não me amar.
Entendi que em cada gesto de cuidado e carinho eu me sentia mais feliz.
Meu amor não gosta da minha gata mas instalou todas as prateleiras do meu apartamento, bem como a pia e montou os móveis de cozinha até fazer bolhas nas mãos.
Ele não pensa em ter filhos mas já cozinhou para mim inúmeras vezes (ele é um cozinheiro excelente!) e já encheu minha geladeira quando notou que eu estava sem dinheiro e ela estava fazendo eco.
Ele é um gordo desgraçado, teimoso, sarcástico e inflexível mas vai comigo buscar meu filho e me leva no trabalho para eu não ter que pegar ônibus.
E me abraça e beija, divide as idéias, os sonhos, a cerveja, a cama, os bons momentos e aqueles em que não sabemos o que fazer.
Talvez ele nunca queira dividir uma casa comigo e com meu filho mas me dá a certeza de que quando a coisa ficar ruim ele estará comigo.
E ele é tão fofo as vezes que lembra por mim de colocar um pacote de bolachas na minha bolsa, caso eu fique com fome durante o expediente - gesto que vale por uma dúzia de rosas!
Então, enquanto eu como a bolacha e penso nisso tudo, a única coisa que eu sinto é amor. As incertezas e a necessidade de encaixá-lo no meu projeto de vida se tornam cada vez menores e o sonho vai se modificando suavemente, até caber todo o mundo, cada um no seu formato.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Substituir o pepino por marisco está longe de te fazer mulher

Eu tenho uma certa implicância com as minorias. Talvez pelo fato de as minorias serem geralmente apoiadas por idiotas, não colocadas em cheque, não analisadas com olhos críticos. São sempre uns coitados e isso basta: se é negro justifica que não estude e mereça cotas; se é cadeirante é bonzinho e doce; se é gay é um vencedor por ter saído do armário. Se é eco-chato é uma pessoa boa, lutando por um mundo melhor.
Minha indignação se volta hj contra os transexuais. O pessoal que vai à Tailândia colocar o bilau para dentro e se chamar de fêmea. Desculpa ae, mas substituir o pepino por marisco está longe de te fazer mulher. Mesmo depois de quilos de hormônios, maquiagem, roupas, falta de pinto, vc ainda será um homem.
Eu posso até te chamar de Gilda, Carolina, Juliana, isso nem me incomoda. Posso dividir o banheiro, posso entender que você goste de filmes de moça. Mas paramos por aqui.
Ser mulher é uma questão de insanidade, de hormônios verdadeiros e naturais, de cólicas, de incertezas e de desenvolvimento tardio do raciocínio lógico – quando o há. É não ter certeza sobre onde está a saída do shopping, não saber de supetão qual é a direita ou a esquerda. É ter a possibilidade de gestar, de expelir um ser humano completo de 4kg por um buraco onde só passaria um limão.
Por que se embarcar na onda de "eu quero ser tratado como mulher"? Eu vou entrar na onda de "quero ser tratada como a princesa Kate"! Ai vai dar merda, não é?
Então eu sinto muito por você que gastou os tubos nessa cirurgia e quer ser chamada de Gabriela ao invés de Alessandro. Uma vez tida a experiência de ter bolas, mesmo que não as valorizando, já te fez homem. Para sempre.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Os beagles e a mulher parindo no riacho: ingratidão
Fique pensando a respeito de alguns fatos dos últimos dias.
Primeiro sobre a invasão do Instituto Royal. Depois sobre um vídeo que circula na internet sobre uma mãe parindo na beira de um rio.
O que os dois fatos têm em comum? A mim me vem a palavra ingratidão.
O ser humano é um bicho curioso. Um bicho insatisfeito desde que surgiu, quando resolveu aproveitar o fogo, quando decidiu para de zanzar a procura de alimento, criando a agricultura, quando decidiu que queria uma casa ao invés de uma caverna. Mais além decidiu que não queria mais morrer de qualquer coisa e foi criando ferramentas, desenvolvendo métodos de driblar a morte. Fez tentativas frustradas de sangrias, sanguessugas, emplastros. Fomos cobaias de nós mesmos por muitos séculos. Morrímos de dente inflamado, veja você! Mas fomos mais inteligentes e descobrimos a penicilina e mais uma vez ganhamos pontos contra a senhora da foice.
Sou imensamente grata pela ciência, pelo conforto e vida que ela me proporcionou até agora. Consigo entender sua magnitude em nos proporcionar uma vida com menos dor, menos incomodo, menos mortes. E acredito que sacrifícios sejam necessários como raspar o pelo de um beagle ou fazer nascer uma orelha nas costas de um rato. O mundo não é justo, encare isso.
Por que meus antepassados já foram cobaia e tenho quase certeza de que ninguém invadiu um aposento carregando no colo um doente cheio de sangessugas ou cortes de sangria.
Quanto ao parto na beira do rio, gostaria de lembrar às naturebas de plantão que mulher é bicho sim, mas que isso não nos deixa imunes. Na vida selvagem muitas fêmeas perdem seus filhotes e perdem suas vidas em partos mal sucedidos.
Quer ser da banda dos orgânicos, floral de Bach e saia rodada? Tudo lindo, tudo maravilhoso, mas lembre-se que em uma complicação é o médico quem vai te salvar, não uma oferenda à Deusa Mãe ou umas gotas de homeopatia. Como já ouvi por ai, se a mãe tem um pré- natal bem feito, as chances de um parto em casa bem sucedido são grandes.
Não sei você leitor, mas eu acho uma falta de vergonha na cara uma mãe passar os nove meses fazendo exames modernos em clinicas e hospitais, confiando em um médicos, para depois desdenhar da medicina dizendo que quer ter o filho na beira do riacho por que é natural e que cesariana é uma enganação, um absurdo! Quer ser natural? Fique sem pré- natal, sem tomar ácido fólico, sem ultrassom, com a incerteza
que só a natureza pode te dar! Se o bebê entalar e você sangrar como um bicho, pense que tudo isso é a natureza fazendo uma seleção natural.
O ser humano lutou muito contra as adversidades para chegar até aqui. Quando olho o para mim e para meu filho saudáveis só sinto gratidão pelas vacinas, pelos remédios, pelos médicos, pela ciência. Sinto gratidão inclusive pel natureza, por ter proporcionado ratos, macacos e beagles para nos auxiliar! E daqui de cima, sinto um profundo desgosto pela ignorância e ingratidão que ainda circunda boa parte dos meus semelhantes que, tenho certeza, não querem morrer de dor de dente.
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