Quando me perguntam se ele é bonito, respondo que não. Por que sei que meu arquétipo de homem belo quase nunca coincidiu com o de minhas amigas. Enquanto elas analisam apenas o que os olhos vêem, o que me encanta é o conjunto, algo mais além. Nunca me importei com o que vinha com ele como carro, dinheiro, poder, palavras lisonjeiras de algum poeta clichê embaladas por algum vinho chileno. Não esperei por nada que não fosse seu cheiro, suas mãos, a segurança de cada dia o sexo perfeito das nossas noites. Muitas vezes foram as palavras não ditas, mas compreendidas, que me fizeram suspirar.
Quando olho para sua pele árida, castigada pelo sol de um país que não é o dele, sinto nessa dureza um ponto extra de masculinidade como se ele, diferente da maioria dos nativos, tivesse uma dificuldade maior em existir. Os olhos claros igualmente castigados são adornados por pequenos vincos que beijo todas as manhãs, enquanto ele não os esconde sob os óculos escuros.
Os cabelos curtos, ruivos e grossos estão sempre rebeldes, domados por mãos duras cheias de sardas que insistem em abaixá-los. São esses cabelos que há muitas noites escorrem por entre meus dedos e sentem a força leve das minhas mãos na hora do sexo. E amo, cada fio existente nele.
Então ele não se parece em nada com os homens das minhas amigas, todos muito cultos, trabalhadores cerebrais de escritórios refrigerados, com mãos macias de quem nunca trabalhou com algo realmente masculino. São homens frágeis, que dobrariam como um bambu ao vento na primeira brisa. Não os desmereço; cada um sabe que lugar lhe parece mais confortável nesse mundo. Meu homem nasceu para o trabalho pesado, é constituído para esse fim física e psicologicamente. Mas nas noites em que o tenho e nos momentos em que estamos a sós, quando me deito sobre seu peito dentro da banheira, consigo tocar uma fragilidade, uma maciez de existência que só eu sei onde se encontra e que ele só torna visível para mim.