É o que dizem

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domingo, 11 de março de 2012

Quando me perguntam se ele é bonito, respondo que não. Por que sei que meu arquétipo de homem belo quase nunca coincidiu com o de minhas amigas. Enquanto elas analisam apenas o que os olhos vêem, o que me encanta é o conjunto, algo mais além. Nunca me importei com o que vinha com ele como carro, dinheiro, poder, palavras lisonjeiras de algum poeta clichê embaladas por algum vinho chileno. Não esperei por nada que não fosse seu cheiro, suas mãos, a segurança de cada dia o sexo perfeito das nossas noites. Muitas vezes foram as palavras não ditas, mas compreendidas, que me fizeram suspirar.

Quando olho para sua pele árida, castigada pelo sol de um país que não é o dele, sinto nessa dureza um ponto extra de masculinidade como se ele, diferente da maioria dos nativos, tivesse uma dificuldade maior em existir. Os olhos claros igualmente castigados são adornados por pequenos vincos que beijo todas as manhãs, enquanto ele não os esconde sob os óculos escuros.

Os cabelos curtos, ruivos e grossos estão sempre rebeldes, domados por mãos duras cheias de sardas que insistem em abaixá-los. São esses cabelos que há muitas noites escorrem por entre meus dedos e sentem a força leve das minhas mãos na hora do sexo. E amo, cada fio existente nele.

Então ele não se parece em nada com os homens das minhas amigas, todos muito cultos, trabalhadores cerebrais de escritórios refrigerados, com mãos macias de quem nunca trabalhou com algo realmente masculino. São homens frágeis, que dobrariam como um bambu ao vento na primeira brisa. Não os desmereço; cada um sabe que lugar lhe parece mais confortável nesse mundo. Meu homem nasceu para o trabalho pesado, é constituído para esse fim física e psicologicamente. Mas nas noites em que o tenho e nos momentos em que estamos a sós, quando me deito sobre seu peito dentro da banheira, consigo tocar uma fragilidade, uma maciez de existência que só eu sei onde se encontra e que ele só torna visível para mim.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Tenho pensado muito ultimamente sobre dizer a verdade. Conheço algumas pessoas que gostam de dizer que dizem as coisas "na cara" como se isso fosse um ato de coragem extremo. Na maior parte das vezes é pura grosseria.
Nem tudo deve ser dito pelo bem de um relacionamento. Certas verdades não querem ser ouvidas e quando ditas causam repercurssão fora de controle.
Confesso que todos os dias tenho vontade de dizer verdades. Dizer por exemplo que a namorada de um amigo se veste como uma puta, que o sexo com aquela pessoa não é tão bom, que alguns amigos devem procurar terapia urgente e que membros da minha família são responsáveis por horas de terapia futura.
Mas se eu jogasse toda essa merda no ventilador, eu seria mais feliz? Me sentiria aliviada, óbvio, mas valeria a pena? Por que, se me importo em dizer essas coisas a eles, é porque eles são importantes para mim, alguns deles chego mesmo a amar. Então, vale a pena deixá-los constrangidos ou irritados? Não. Um bom amigo muitas vezes, percebe que certas pessoas não querem ser confrontadas. Todas elas, no fundo sabem ou desconfiam do que eu tenho para dizer.

sábado, 3 de março de 2012

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
E tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
A minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Há alguns anos atrás li uma reportagem sobre pedofilia. Um caso extremo me deixou tão chocada que lembro-me dele até hoje: uma menina de 1 ano foi estuprada por todos os familiares em uma província da Índia. Ela foi internada e teve que passar por diversas cirurgias.
Ontem, vi um documentário sobre as ações humanitárias da Angelina Jolie. Dentre elas a entrega de alimentos a homens de uma província da Índia...
É provavel que nem sejam as mesmas pessoas. Mas foi inevitável pensar que o senso comum, quando aplicado à pessoas, muitas vezes é falho. É mais fácil colocarmos todos em um mesmo saco e analisarmos o grupo do que cada indivíduo separadamente.
Nem todo o velhinho é meigo. Se Hitler estivesse vivo e fosse um idoso, por exemplo, continuaria sendo um fascínora, apenas mais lento.
Nem todo o deficiente físico é legal. Conheço alguns que não valem um ovo.
Nem todas as crinças são puras e doces: algumas são más desde cedo batendo e aterrorizando mentalmente colegas de escola.
Acho que as ações da Angelina são incríveis visto que ela vai até lugares esquecidos por todos e coloca a mão na massa entregando uma parte do que o pessoal necessita. Mas me pergunto se algumas daquelas pessoas não merecem o infortúnio pelo qual estão passando e a mão amiga esteja sendo ludibriada pelo senso comum de que todo o pobre miserável é bom.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Fui tomada de um medo maluco essa semana. Nao lembro se foi no mercado ou no elevador, que me dei conta de que talvez eu fique solteira para sempre. Não foi um susto ou um pânico a ponto de pegar o primeiro cidadão e faze-lo meu namorado. É um medinho tímido que fica rondando minha cabeça, discreto mas sempre presente.
Para a grande maioria das minhas amigas e mulheres de 30 e poucos anos, ficar sozinha é aterrorizante. Todas querem casar, em primeiro lugar. Querem partilhar da dor e felicidade da maioria das mulheres que ja casaram e se preparam para viver a dois eternamente. Usar o vestido branco, dar a festa, usar uma aliança e planejar.
No meu caso é um pouco diferente. Eu ja casei, já tive um filho e o gostinho de quero mais é do filho, não do casamento.
O que me preocupa não é ficar solteirona; me preocupa eu não ter mais filhos, uma família. Uma família de um filho só é mais econômica, mais prática, menos cansativa. Mas se vcs me conhecem, sabem que eu não sou prática. Nos meus sonhos, minha casa é grande, com piso de madeira, uma varanda cheia de plantas e uma cozinha enorme, pronta para se cozinhar qualquer coisa. Na minha casa existem quartos, todos ocupados por filhos, no mínimo dois. E meus filhos me trarão seus amigos, suas namoradas, mais amigos, meus netos, quem sabe se eu me cuidar até bisnetos!
Sim, minha casa vai ter brigas, bagunça, confusão. Vou me sentir cansada, vou me perguntar se fiz a coisa certa, vou ter menos dinheiro do que esperava. Mas eu serei o coração de uma casa cheia de vida, de pessoas. Vou olhar para trás e pensar: tenho meu clã, fiz minha parte.
Nada vai me fazer mudar de idéia.