sábado, 29 de setembro de 2012



Não sou do tipo que quer saber muito sobre a origem dos produtos que eu consumo. Sou uma típica garota de cidade, “piá de prédio”, criada a base do que está disponível nos supermercados.
Mas hoje me toquei que meu almoço é praticamente orgânico. Acho engraçado esse tipo de povo politicamente correto que paga R$10 o kg de cenoura orgânica, mas não se dá o trabalho de meter a mão na terra e plantar alguma coisa para ter um orgânico para chamar de seu.
Já eu tenho um tesão enorme em plantar coisas e só não planto mais por falta de espaço: continuo sendo “piá de prédio”. Mas o que posso eu cultivo: tenho manjericão, morango e alecrim na janela do quarto, orégano, cebolinha verde, tomilho e hortelã na sacada.
Hoje fui à feira, coisa que não faço com tanta freqüência por preguiça e por achar o preço das verduras (que não andam tão bonitas assim) meio salgado. Mas hoje queria comprar frango e sei que as barracas de lá comercializam frango de pequenos produtores que ainda criam os bichos de maneira mais natural com milho e raçãozinha básica, o famoso frango caipira.
Comprei uns tomatinhos cereja com aquela cara de tomate de jardim, sem a maquiagem química dos agrotóxicos, umas batatas e ovos caipiras que tenho certeza, terão aquela gema laranja que deixa qualquer massa com cara de massa de vovó. Da mesma barraca do frango ainda trouxe quatro lingüiças alemãs temperadíssimas, sugestão da Margot, dona da barraca e produtora das lingüiças, morcilhas, patê de porco, queijinho e demais delícias típicas do povo rural da região, um misto de alemães com italianos cada um com uma receita melhor do que a outra.
E La estava eu preparando meu almoço de mulher preguiçosa (enfio tudo na assadeira e cubro com papel alumínio) quando me dei conta de que a parada era orgânica! O frango criado de forma natural, os tomates sem agrotóxico, a lingüiça caseira e minhas ervas de sacada: tomilho e orégano. Tudo regado à um vinho branco chileno que com certeza não é orgânico mas daí seria esperar demais de mim!
No final das contas cozinhar é bom de qualquer forma. O que importa é imprimir sua marca, seu toque, seja com produtos orgânicos metidos à besta, seja com produtos orgânicos sem muita marra como essas belezinhas que achei na feira e que farão o maior sucesso na mesa.
É claro que grandes cozinheiros sabem exatamente a origem de todos os ingredientes e ficam de firula como aquele pessoal estranho com cara de bunda, que analisa vinho. Espero que após a faculdade de gastronomia eu não vire uma cara de bunda também. Por favor, se começar a me transformar, me avise!

sexta-feira, 8 de junho de 2012


Para L. com seu puro e perfeito coração flamejante.

 

E de repente, não mais que de repente, a festa acabou. Perdi a graça ainda sentada no banquinho, em cima do palco. Não tenho platéia, ninguém veio ver o espetáculo da garota with the flaming heart.

As luzes estão se apagando uma a uma e eu continuo a olhar para porta, para ver se você vai entrar, para salvar o show e me dar a última salva de palmas.

Mas veja só, meu amor, o pessoal já está lavando os copos e varrendo o chão.  Os garçons arrumaram suas namoradas de fim de noite e me olham com cansaço. O piano foi fechado e as estrelas brilham por brilhar.

Conformada, guardo minha voz e todas as minhas frustrações. Caminho pela noite gelada de menos um dia e mais uma noite longa, para desfiar uma a uma, as pedras do rosário de hipóteses que guardo ao lado da cama.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa

sábado, 14 de abril de 2012

Acordei cedo demais hoje. Fui dormir cansada demais para fechar as cortinas, chateada demais para tirar as roupas.
Olhei o dia cinza e me doeu mais aquilo que me incomodava ontem.
Sinto sua falta. Uma falta ridícula daquilo que não tenho e sinto medo de perder. Olho para o dia, para as tarefas a serem feitas, o café passado, o incenso aceso, o telefone mudo firme na sua função de me atormentar e sinto vazio.
Odeio paixões, me tiram do prumo, do eixo, dificultam meu dia-à-dia. Me fazem querer aquilo que não queria mais, imaginar sonhos idiotas, sorrir para situações sem graça. Minhas mãos suam, meu coração acelera e eu gaguejo. Fico esperando ligações, fico lembrando do sexo, sentindo gosto de beijo no meio do expediente.
Paixão é uma reação química que me deixa sem sentido.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Não sou religiosa. Não no sentido de ter uma religião, especialmente as nascidas dentro do cristianismo. Não acredito em dogmas, não acredito em disciplina para orar, não acredito em religiões que interfiram no meu livre arbítrio, no âmbito social ou que preguem castigos, físicos ou mentais como forma de expiar um pecado original imaginário. Não acredito num Deus mau e maquiavélico que elege correspondentes na terra, que castiga ou que tenha forma humanóide.

Mas hoje pela manhã, bem cedinho, contemplei o mar e o sol alto por entre as nuvens e senti vontade de orar. Uma oração silenciosa, pessoal, sem pedir nada, sem me desculpar com ninguém. Foi simplesmente uma vontade de me comunicar, fazer parte, me misturar. Lembrei então de uma oração linda, do povo sioux que tem muito a ver com o acontecido:

ORAÇÃO DA TRIBO SIOUX

Ó Grande Espírito, cuja voz ouço nos ventos, cujo sopro anima o mundo, ouça-me.

Sou pequeno e fraco, preciso de sua força e sabedoria.

Permita que eu caminhe na Beleza, e faça com que meus olhos contemplem para sempre o vermelho e a púrpura do sol poente.

Faça com que minhas mãos respeitem todas as coisas criadas

Faça meus ouvidos aguçados para que eu ouça a sua voz.

Faça-me sábio para que eu possa entender tudo aquilo que foi ensinado ao meu povo.

Permita que eu apreenda os ensinamentos escondidos em cada folha, em cada pedra.

Busco força, não para ser maior do que meu amigo, mas para lutar contra meu maior inimigo – eu mesmo.

Permita que eu esteja sempre pronto para ir ao teu encontro de mãos limpas e olhar firme.

Assim, quando a minha vida estiver no ocaso, como o sol poente, que meu Espírito possa ir à sua presença, sem nenhuma vergonha.