quarta-feira, 6 de junho de 2012

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa

sábado, 14 de abril de 2012

Acordei cedo demais hoje. Fui dormir cansada demais para fechar as cortinas, chateada demais para tirar as roupas.
Olhei o dia cinza e me doeu mais aquilo que me incomodava ontem.
Sinto sua falta. Uma falta ridícula daquilo que não tenho e sinto medo de perder. Olho para o dia, para as tarefas a serem feitas, o café passado, o incenso aceso, o telefone mudo firme na sua função de me atormentar e sinto vazio.
Odeio paixões, me tiram do prumo, do eixo, dificultam meu dia-à-dia. Me fazem querer aquilo que não queria mais, imaginar sonhos idiotas, sorrir para situações sem graça. Minhas mãos suam, meu coração acelera e eu gaguejo. Fico esperando ligações, fico lembrando do sexo, sentindo gosto de beijo no meio do expediente.
Paixão é uma reação química que me deixa sem sentido.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Não sou religiosa. Não no sentido de ter uma religião, especialmente as nascidas dentro do cristianismo. Não acredito em dogmas, não acredito em disciplina para orar, não acredito em religiões que interfiram no meu livre arbítrio, no âmbito social ou que preguem castigos, físicos ou mentais como forma de expiar um pecado original imaginário. Não acredito num Deus mau e maquiavélico que elege correspondentes na terra, que castiga ou que tenha forma humanóide.

Mas hoje pela manhã, bem cedinho, contemplei o mar e o sol alto por entre as nuvens e senti vontade de orar. Uma oração silenciosa, pessoal, sem pedir nada, sem me desculpar com ninguém. Foi simplesmente uma vontade de me comunicar, fazer parte, me misturar. Lembrei então de uma oração linda, do povo sioux que tem muito a ver com o acontecido:

ORAÇÃO DA TRIBO SIOUX

Ó Grande Espírito, cuja voz ouço nos ventos, cujo sopro anima o mundo, ouça-me.

Sou pequeno e fraco, preciso de sua força e sabedoria.

Permita que eu caminhe na Beleza, e faça com que meus olhos contemplem para sempre o vermelho e a púrpura do sol poente.

Faça com que minhas mãos respeitem todas as coisas criadas

Faça meus ouvidos aguçados para que eu ouça a sua voz.

Faça-me sábio para que eu possa entender tudo aquilo que foi ensinado ao meu povo.

Permita que eu apreenda os ensinamentos escondidos em cada folha, em cada pedra.

Busco força, não para ser maior do que meu amigo, mas para lutar contra meu maior inimigo – eu mesmo.

Permita que eu esteja sempre pronto para ir ao teu encontro de mãos limpas e olhar firme.

Assim, quando a minha vida estiver no ocaso, como o sol poente, que meu Espírito possa ir à sua presença, sem nenhuma vergonha.

sábado, 3 de março de 2012

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
E tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
A minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Oin, ti fofo!

Esse poeminha nerd foi recitado pelo personagem Kumar em Harold& Kumar 2, um desses filmes-besteira americanos. É fofo!

Raiz quadrada de 3

Tenho medo de ser vejam vocês
Solitário como a raiz de três
Um tres é tudo o que de mais lindo existe
Não quero ver você triste

Por baixo de uma raiz quadrada daninha
Se eu fosse um nove, você seria minha
Por que o nove com sua estetica
Resove rapido essa aritimetica

Sei que não tenho valor algum
Como 1,7321
Assim é minha realidade
Uma triste Irracionalidade

Mais derepente
O que no caminho eu vejo
Outra raiz quadrada de tres nesse incejo
Que vem comigo valsar,
E agora vamos juntos multiplicar.

Para formar o numero que preferimos
Somos um numero inteiro quando nos unimos
Assim dos laços mortais nos livramos
E com uma varinha magica acenamos

Para que nossa raiz não seja mais quadrada
E que eu seja renovado por minha amada

David Feinberg